O despertador tocou, e Sofia levantou-se. Estava cheia de sono pois eram seis horas e quarenta e cinco minutos mas era dia de escola e não podia chegar atrasada. Vestiu-se, penteou-se e dirigiu-se à cozinha onde encontrou o irmão, ainda mais sonolento que ela, a comer uma torrada e um copo de leite.
- Acorda Miguel – disse Sofia – hoje sou eu que te levo á escola e não quero levar com as culpas de chegares atrasado – com isto tirou-lhe uma torrada do prato e começou a comer.
- Acorda Miguel – disse Sofia – hoje sou eu que te levo á escola e não quero levar com as culpas de chegares atrasado – com isto tirou-lhe uma torrada do prato e começou a comer.
- Essa era minha! – Disse Miguel – fui eu que tive o trabalho de a preparar.
- Pois, pois, e eu não sei que foi a mãe que a fez, nem nada – disse Sofia ironicamente – tu és bastante preguiçoso, nem sequer ainda te vestiste!
- Está bem, está bem, já vou! – disse Miguel.
Miguel dirigiu-se para o quarto e vestiu-se ensonado.
-Despacha-te Miguel, estamos atrasados! – Este vestiu-se á pressa e de seguida voou para junto da Irmã.
Sofia entregou-lhe a mala e dirigiu-se para o hall dos elevadores onde os dois esperavam desesperadamente que um chegasse. Logo que este chegou ambos entraram e de seguida carregaram no botão do rés do chão.
Quando saíram do prédio encontraram logo os melhores amigos do Miguel. Enquanto atravessaram a rua prestavam atenção a todo o barulho desconfortável que a cidade emitia.
- Já viram este barulho horrível! - exclamou Miguel – A nossa prima Raquel, aquela que vive no interior, contou-nos que nunca havia tanto barulho. Disse que quando ia para a escola apenas ouvia o som dos pássaros, uma melodia eternamente linda e agradável.
- Pois, nós apenas conhecemos este som de carros e este cheiro a poluição. Se fossemos passar umas férias lá iríamos sentir-nos no paraíso! – Repostou Sofia.
Já a rua estava atravessada, quando se aperceberam que já estavam dez minutos atrasados. Desataram a correr até chegarem ao portão da escola, onde passaram o cartão tão rapidamente que parecia que tinham sido arrastados por um tornado.
Passaram o recreio e dirigiram-se para o portão que os guiava para um corredor recheado de portas de onde saiam luzes e vozes de professores e alunos. Os dois irmãos seguiram até à sala 11 onde ficou o Miguel. Sofia continuou, sentia que o corredor nunca iria terminar e que nunca chegaria à escada que tinha de subir. Continuava a ouvir as vozes, principalmente a de uma aula de Ciências onde falavam exactamente nos sons de uma cidade e de os do campo. Sofia parou a ouvir e algum tempo depois continuou. Seguiu até á escada e subiu. Andou um pouco mais no corredor e entrou numa sala que na porta tinha o numero 22. Era a aula de matemática. Mais uma vês chegou atrasada, o professor já estava farto e por isso deu--lhe exercícios a dobrar. Sofia já nem se preocupava, tinha sido a única negativa do ano passado e este ano continuava. Sofia seguiu para a sua carteira e sentou-se junto da sua melhor amiga, Mariana.
- Pelo menos já não tens trabalhos de casa! – exclamou Mariana.
- Isso pensas tu, ele manda sempre a mais para mim, nem que seja de outro livro. Ele arranja sempre alguma coisa.
- E não te importas?
- Para quê? Não ia mudar nada. Bem, vou tentar começar a tentar fazer estes exercícios, mas não vou conseguir.
Depois de um quarto de hora a tentar fazer a primeira conta, Sofia a adormeceu em plena sala de aula. Mariana tentou esconder com o dossier como fazia habitualmente (Sofia adormecia quase todas as aulas), mas desta vês o professor viu.
- Sofia! Sofia! Não se dorme nas aulas de matemática – gritou o professor
- O quê? Mas...e…eu…eu não estava a dormir…estava só…só…só a…a…a descansar. Sabe para arejar o Cérbero?!
- Bem, vá á casa de banho lavar a cara e depois falamos do seu castigo!
- Mas…
- Mas nada, vá a turma não vai para por sua causa!
Sofia dirigiu-se á porta e saiu. Passou novamente no corredor e desceu as escada. Passou pela a sala do irmão e foi para o portão. Atravessou o recreio e foi para o edifício do ginásio. Entrou pela porta do balneário e passou a porta para a casa de banho que se encontrava ao lado. Era uma casa de banho moderna, tinha as cabines vermelhas e brilhantes, uma bancada vermelha onde assentavam os lavatórios cor de cinza e, por cima das bancadas um vidro corrido e brilhante mas estranhamente estava partido numa ponta.
- Nunca tinha visto este vidro partido. É estranho parece tão diferente, tão irreal!
Sofia aproximou-se e tocou-lhe. A casa de banho começou a girar, era tudo tão lento, tão rápido, tão estranho. Sofia esfregou os olhos e quando voltou a olhar tudo estava normal.
- Deve ter sido apenas uma tontura, bem com este professor nunca se sabe. Até tenho pesadelos com matemática.
Com isto saiu da casa de banho e por sua vez do balneário. Fez todo o caminho inverso até chegar á sala de aula. Bateu á porta e entrou. Enquanto Sofia caminhava para a sua carteira ouviam-se bichanares.
- Sofia, para onde vais? – perguntou o professor.
- Desculpe professor, qual é o meu castigo afinal?
- Castigo? Esta rapariga é tão imaginativa, talvês isso tenha ajudado a ganhar este prémio.
- Prémio?! Acho que o professor enlouqueceu de vês! – disse Sofia – ainda por cima a matemática.
Sofia estava estupefacta, não sabia que fazer nem que dizer. Olhou para Mariana e pedir ajuda, mas esta não estava no seu lugar. Em vês dela encontrava-se Catarina a sua maior inimiga, Sofia não a suportava, não conseguia imaginar o que seria estar ao seu lado. Virou-se e encontrou Mariana no lugar da Catarina.
- Como é possivél que este professor mude a planta da sala sem sequer falar com a directora de turma, ou como é que eu vou receber um prémio?! E a matemática?! – pensou Sofia – se calhar anda um vírus qualquer pela escola que afecta os professores.
Sofia olhou com o seu olhar de «ajuda-me!» para Mariana, mas, ela virou-lhe a cara mostrando ódio.
- Até parece que sou amiga dela – disse Mariana para a colega do lado – Só porque ganhou um prémio pensa que pode ser amiga da dona da maior quinta da vila.
- VILA! PRÉMIO! ESTÃO TODOS LOUCOS! A MARIANA NEM SEQUER É MINHA AMIGA! AH! – gritou Sofia.
- De que é que estás a falar - disse Catarina – Nunca foste amiga da Mariana, nem nunca viveste fora da vila!
- Bem, Sofia este prémio é teu, para já recebes apenas o diploma, mas na festa deste fim-de-semana receberás a medalha e o troféu de melhor estudante.
Com isto o professor entregou-lhe um papel emoldurado onde se podia ler «diploma pelo óptimo desempenho escolar. Escola de vila verdejante»
- Vila verdejante, esse é o nome da vila da Raquel! Deve ser para eu lhe entregar. – Pensava Sofia.
Sofia não sabia o que se passava, todos estavam normalíssimos e não havia um só rosto admirado pelo prémio que Sofia tinha recebido. Alguns bichanavam: «outro…ela deve fazer colecção»e outros: «olhem para a sua cara, parece que não tem espaço na prateleira dos prémios». E Sofia no meu da sala, parada a olhar em redor com admiração. Estava imóvel não saia do lugar, olhava para o rosto de Catarina que lhe sorria como se fosse a sua melhor amiga.
Entretanto as pequenas conversas entre os alunos tinham parado, a sala de aula encontrava-se em silencio. Todos olhavam fixamente para Sofia que se mantinha quieta no mesmo lugar. O silencio mantinha-se até que, a campainha tocou para intervalo. Os alunos saíram todos, todos excepto Sofia que continuava parada no centro daquela sala de aula pequena, mas moderna.
- Não sais Sofia? – perguntou o professor enquanto arrumava os seus pertences – Queres ficar aqui um pouco a estudar?
- A estudar? Não eu vou já para o recreio, não se preocupe eu vou já sair.
- Está bem, no final, não te esqueças de fechar a porta.
O professor saiu. Sofia dirigiu-se ao seu lugar e pôs o diploma na mochila, abriu o dossier e procurou os testes. Todos os seus testes tinham como nota “Muito Bom” e os seus trabalhos tinham notas que diziam «Parabéns pelo bom trabalho». Sofia fechou o dossier, e saiu da sala. Foi para o recreio e encontrou Mariana.
- Porque é que o professor mudou os lugares? – perguntou Sofia.
- O professor não os mudou, desde que o ano começou que temos a mesma planta – repostou Mariana - e deixa de falar comigo. Só porque tens boas notas não significa que poças falar comigo.
Com isto Mariana seguiu em frente ignorando tudo e todos tal como fazia Catarina habitualmente. Foi nesse momento que Sofia olhou em volta, estava no campo. A escola estava isolada entre campos cultivados quintas e um pequeno riacho que passava rentinho às arvores e às pedras, umas maiores e outras mais pequenas, umas grossas e outras mais finas, de todas as cores que podemos imaginar.
Ao fundo viu uma quinta acolhedora (pelo menos por fora parecia)com um estábulo, um curral e claro a casa dos proprietários. Era vermelha e brilhante, tinha as portas verdes e era tão bonita, tão bonita que Sofia quis tirar uma fotografia com o telemóvel. Sofia tirou o seu telemóvel com cuidado e tirou delicadamente a fotografia. Quando foi à pasta onde tinha as fotos, procurou-a mas tinha fotos de dentro da quinta também.
- Mas, mas, esta é a quinta da Raquel, eu estou mesmo no interior do país, num planalto verdejante e florido. – pensou Sofia – mas como é que vim cá parar, como é que sou a melhor aluna a matemática, como é que a minha melhor amiga é a Catarina e como é que a Mariana me odeia?! Está tudo ao contrário é como um Universo paralelo onde a vida de todas as pessoas é inversa. Mas, com é que eu vim cá parar? Como? Como é possível?
- Já virão o vidro da casa de banho? Está partido. – disseram algumas raparigas que passavam no recreio.
- É isso! Foi o espelho, este objecto levou-me para o Universo paralelo.
Quando Sofia se preparava para ir à casa de banho ver o espalho, Catarina aproxima-se e diz:
- Então não vens almoçar, não era hoje que íamos a tua casa?
- A minha casa, mas eu não… quer dizer, sim, claro a minha casa. Vamos, vamos…
As duas amigas foram andando até ao portão. Passaram o cartão, cuidadosamente e quando deveriam avançar, Sofia não avançou, não sabia para onde ficava a sua casa, apenas via campos de cultivo, e a casa da sua prima Raquel.
- Anda Sofia, fazes este caminho todos os dias, qual é o problema?
- Bem, eu, eu acho… acho que… que tu devias ir á frente, como se diz… primeiro os convidados.
- Está bem, então vamos.
Assim, Sofia avançou atrás da sua amiga, ou inimiga, bem, como quer que fosse, ela seguiu-a. Olhava com atenção para a colega pois não se queria perder.
Com o tempo foi se habituando à paisagem e ao magnifico som que ouvia. Parecia uma orquestra de pássaros com o acompanhamento de esquilos e de animais das quintas próximas. Com isto, Sofia lembrou-se da conversa que tivera com o seu irmão no caminho para a escola, era verdade aquele lugar era maravilhoso, tranquilo e silencioso.
Sofia estava a pensar em conversas como esta, até que Catarina parou, parou mesmo em frente da quinta da sua prima Raquel.
- Mas, esta é a casa da minha prima Raquel! – Exclamou Sofia
- Da tua prima Raquel? Ah, ah, ah, deves estar mesmo com fome – respondeu Catarina – a tua prima Raquel não é aquela que vive na Cidade?!
- O quê? – Perguntou Sofia – Quero dizer… sim, é claro, só me estava a lembrar de uma vês em que ela me pediu uma foto – tentou disfarçar
Depois disto Sofia retirou a chave que tinha no bolso e abriu o portão. Entraram e dirigiram-se ao que parecia ser uma cozinha e encontraram Miguel, que já estava a comer.
- Finalmente. Pensei que não vinhas, a tua comida já está aí.
- Bem, já chegamos.
Com isto, Sofia sentou-se e fez sinal a Catarina para ela fazer o mesmo. Enquanto comiam Sofia olhava em volta e admirava todo aquele silencio. Nem sequer o seu irmão (o maior falador que conhecia) falava.
Sofia olhava em redor até que olhou para o relógio que estava na parede. Era um relógio redondo e encarnado, tinha os ponteiros azuis escuros e, no topo, tinha um galo desenhado.
- Estamos atrasados! – exclamou Sofia.
Com isto tanto Catarina com ela começaram a comer o mais depressa que podiam. quase que a comida voava tal era a rapidez delas.
- Trim… trim…trim… - o telefone tocou
- Eu vou – disse Miguel
Miguel levantou-se e atendeu.
- É para ti Sofia, é a mãe. – disse Miguel
Sofia dirigiu-se ao telefone e começou a falar. Era uma conversa admiração pelo prémio que tinha recebido.
- Obrigada mãe… sim… sim… adeus… beijinhos… adeus – acabou por dizer Sofia – Até logo… adeus.
- Vamos, já são hora de irmos – disse Catarina.
Com isto saíram da quinta e dirigiram-se à escola. Passaram por um ribeiro onde pedras brilhantes e muito espessas eram banhadas por água cristalina, pura a mais bonita que alguma vês Sofia tinha visto. Era uma água translúcida que fez Sofia lembrar-se do espelho. Ao ter esta lembrança, Sofia começou a acelerar o passo e depois de algum tempo já estava a correr. Catarina estava impressionada, mas pensou que ela corria por estarem atrasados por isso também começou a correr.
- A comida que a tua mãe fez estava maravilhosa! – elogiou Catarina
- Obrigada, vou dizer á minha mãe – repostou Sofia
Enquanto as duas falavam, chegaram á escola e passaram o cartão.
- Catarina, o que achavas se num minuto, fosses a minha melhor e noutro fosses a pior?
- Como assim, isso á impossível.
- Pois… pois. – disse Sofia quase a chorar.
Com esta frase, Sofia correu para a casa de banho. Mas quando lá chegou, o espelho não estava partido, nem sequer uma rachinha.
- Não! Não! Vou ficar aqui para sempre! – Chorou Sofia – Nunca mais vou ter a minha verdadeira casa, a minha melhor amiga, não vou ter nada.
Sofia já estava inundada nas suas próprias lágrimas quando uma voz, que parecia a da sua amiga Mariana disse:
- Sofia… Sofia… Sofia… Acorda
- O quê? – Perguntou Sofia
- Acorda Sofia… acorda..
Sofia começou a ver tudo desfocado e esfregou os olhos, quando voltou a olhar estava na sala de aula de matemática. E Mariana estava debruçada sobre ela.
- Mariana! Que saudades. Mas, e o prémio, e a Catarina e, e o espelhol? – desatou Sofia.
- Estamos na aula de matemática, nada disso aconteceu, estavas a dormir.
- E o professor ainda não me viu
- Não, mas se continuares sem fazer os exercícios ele vem cá.
A conversa continuou até ao intervalo. Mas quando tocou Sofia foi logo a primeira a sair, foi direitinha á casa de banho. Quando lá chegou o vidro não estava partido. Em vês disso estava um papel colado que dizia:
- «Então Sofia, gostas-te da viajem ao Universo paralelo. Descobris-te o que é uma vida no campo. E agora de qual é que gostas mais? Não interessa quem eu sou, apenas interessa quem és tu. Adeus.»
- Eu gostei, mas o meu lugar é aqui, com a minha família, os meus amigos, e com um mistério ainda por descobrir.