Era habitada essencialmente por duendes. As suas casas eram cogumelos perfurados ou apartamentos nos troncos ocos. Havia jardins de ervas daninhas e lagos de poças de água, lojas em nenúfares onde se vendiam vestidos e blusas de folhas e flores. Mas além de estes e muitos outros lugares, os duendes temiam principalmente o pântano que estava rodeado pela enorme encruzilhada do horror onde, segundo as lendas, estava escondida, a mais bela flor. Uma vermelha e verde escuro, com pétalas redondas e perfeitas. Não havia rastos de qualquer um dos duendes que lá tinha, entrado. Bem, nem de duendes nem de qualquer outra criatura.
A filha do presidente, Bianca, como todos os outros duendes era pequena e incrivelmente bonita. Entre as suas orelhas pontiagudas corria um cabelo liso, comprido, de um tom de castanho, tão claro, tão claro que muitos seres mágicos achavam-no loiro. Tinha olhos verdes, com uma ponta de castanho, redondos que mostravam um desejo, um desejo profundo, um desejo de aventura, um desejo que lhe parecia impossível de concretizar, um desejo que nunca passaria mais além do que o seu coração.
A sua família vivia no tronco central. Tal como os seus pais e o seu irmão, Bianca tinha um andar completamente para ela. Tinha o seu quarto, casa de banho privada e uma sala secreta que apenas ela tinha conhecimento. Era como um escritório onde guardava as suas histórias, as suas viagens pelo mundo dos sonhos. Tinha também alguns cadernos de rabiscos com desenhos, tinha todos os desenhos possíveis e imaginários. Numa pequena prateleira Bianca tinha cadernos com o seu diário dedos seis anos (partindo do principio que ela tem 15, e que não faltava nenhum dia, ela tinha imensas paginas de diário).havia também o diário de alguns amigos que ela tivera inventado, pois ela não tinha nenhum. Os amigos que tivera antes, apenas se interessavam pelo dinheiro e importância social do seu pai.
Então Bianca vivia assim, apenas com os seus sonhos, os seus segredos, com a sua imaginação e histórias que ela inventava ou que ela conhecia, que ela tinha espalhadas pela sua cabeça, pela sua memória que quase já estava cheia.
Era um dia como todos os outros, Bianca levantou-se, preparou-se como era habitual, tinha o seu vestido de folha verde e brilhante com as suas meias ás riscas que pousavam sobre umas botas castanhas. Saiu do tronco e enquanto caminhava pela rua cruzou-se com um colega da sua escola, de nome Afonso. Bianca nem lhe falou, porque estava habituada a ser ignorada, mas estranhamente ele disse:
- Então, está tudo bem
- Bem, sim… - respondeu Bianca um pouco atrapalhada – não leves a mal, mas onde estão todos os teus amigos.
- Acho que já não tenho amigos… - respondeu Afonso.
- O que aconteceu? – perguntou Bianca – os amigos não se perdem de um dia para o outro…
- Bem, foi tudo uma aposta. Eu apostei com o Carlos que ele não conseguia trepar o tronco grande, sabes, a tua casa. Se eu ganhasse ele dava-me o seu leitor de musica portátil, o novo, o plantações musicais. E se ele ganhasse, eu tinha de passar a encruzilhada do horror sobreviver ao pântano e trazer a flor. Estava seguro de que ele iria perder e por isso arrisquei. O que acontece é que ele ganhou, e agora ninguém fala comigo enquanto eu não trouxer a flor, e segundo as lendas a flor enterra-se para sempre amanhã á meia noite. Agora não sei o que fazer.
- Então vai á encruzilhada e ao pântano e procura a flor.
- Estás a gozar, certo, eu não vou para ali sozinho.
- Então, eu vou contigo, Afonso.
Afonso ainda hesitou, mas acabou por aceitar.
Passado cerca de meia hora estavam os dois, com as suas malas, junto ao portão da cidade. Então, após alguns segundos avançaram os dois.
O caminho era duro e eles não o conheciam, mas avançavam sem preocupações. O caminho era deserto, sempre tudo igual, sem nada de novo.
- Porque quiseste vir comigo? Afinal, é quase certo o fim – disse Afonso
- A minha vida, não é vida, nunca foi. Não tenho amigos, nunca os tive. Estou sempre sozinha, nunca tive ninguém… é me igual se vou ou não, se morro ou se continuo a viver.
Após esta pequena conversa avançaram. Trocaram algumas impressões e momentos que tinham vivido, mas todas estas conversas acabaram ao avistarem, um género de labirinto. Pararam um pouco, mas depois de algumas palavras de despedida como «gostei de te conhecer» e «foste um/a bom/a amigo/a» avançaram.
Aquilo era estranho, não havia nenhum animal feroz, apenas cadáveres no chão, provavelmente, morreram de sede ou fome. A verdade é que o tempo estava a passar, e eles não encontravam o fim daquele labirinto. Estava a começara a escurecer e eles ali de um lado para o outro, sem conseguir avamçar.
- Afonso, acho que devíamos ir por aqui – disse Bianca apontando para o lado direito.
- Não Bianca, devíamos ir por aqui – disse Afonso apontando para o lado esquerdo.
- Afonso, tenho a certeza de que este lado é melhor
- Não é!
- É sim!
- Então porque não vais por ai, eu vou por aqui! – disse Afonso.
- Está bem, mas eu vou encontrara a flor primeiro!
- Sim, sim, continua a sonhar…
Então os dois seguem cada um para o seu lado. Ainda furiosos, e já de noite continuaram. Acabaram por adormecer.
No dia seguinte levantaram-se exactamente á mesma hora, apesar de estarem separados. Continuaram a andar, fizeram algumas coisas e os dois ao mesmo tempo encontraram a saída.
- CONSEGUI!… TU!… SIM EU!… HAVIA DUAS SAIDAS?… - gritaram os dois ao mesmo tempo
- Afinal não havia razão para estarmos chateados – disse Bianca
- Sim, tens razão.
E continuaram o percurso, desta vez de mãos dadas. Caminharam um pouco e pouco tempo depois encontraram o pântano.
- Como é que passamos – disse Afonso
- eu tive uma ideia – disse Bianca
Bianca virou-se e tirou da sua mala quatro folhinhas vardes.
- sobe para cima delas, estas não nos levam ao fundo
Os dois subiram e assentam os seus pés cada um na sua folha. Assim começam a deslizar sobre aquela cobertura pegajosa sem encontrarem nada. Mas passado algum tempo encontraram uma pedra enorme ali no meio. Era uma pedra brilhante, e Bianca não resistiu a tocar-lhe.
Mal Bianca tocou, abriu-se um clarão de uma luz intensa, dourada. Que vinha acompanhada uma voz doce que disse:
- Chegaram ao vosso destino, mas não vos posso entregara flor.
- Porquê? – perguntou Bianca
- Porque a verdadeira flor, amais bonita que existe já vocês alcançaram, o amor.
- Então fizemos isto tudo para nada? – perguntou Afonso
- Não, foi esta viajem que vos fez encontrar o amor. Éssa é a diferença entre vocês e todos os outros que aqui vieram, só vocês têm coração com espaço para a flor do pântano e para todas as outras flores que ainda podem encontrar.
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